19 de julho de 2026
A França fez o que muitos países ainda evitam discutir com clareza

A França acaba de dar um passo que merece a atenção de todos que acompanham a psiquiatria intervencionista: a criação de um enquadramento formal para o uso de cetamina intravenosa em adultos com ideação suicida grave.
Não se trata de mais um estudo promissor somando-se aos outros. Trata-se de um momento em que a evidência científica começa a ganhar tradução regulatória — e o The Lancet tratou a decisão como um marco regulatório internacional.
A decisão: a ANSM, agência regulatória francesa, formalizou em 09/03/2026 a prescrição compassiva de cetamina injetável para ideação suicida grave em adultos.
De "será que funciona" para "como fazer com segurança"
Na prática, essa decisão amplia o nível da conversa. A pergunta deixa de ser apenas se a cetamina funciona para quadros suicidas graves, e passa a ser também: como oferecer esse tratamento com segurança, critério, monitorização e responsabilidade?
Esse ponto é central em psiquiatria aguda. Nos quadros mais graves, tempo importa — e quando o tempo importa, via de administração, biodisponibilidade, previsibilidade farmacológica e robustez da evidência clínica passam a ter ainda mais peso na decisão terapêutica.
- Cetamina IV (via intravenosa): biodisponibilidade previsível e controle fino da dose administrada, com resposta historicamente mais estudada em contextos de urgência psiquiátrica.
- Esketamina (via intranasal): alternativa de administração mais simples operacionalmente, com protocolo próprio e absorção sujeita a maior variabilidade individual.
A decisão francesa reacende justamente essa discussão: o valor relativo de cada estratégia terapêutica — e a importância de protocolos bem estruturados em contextos de urgência psiquiátrica, mais do que a escolha isolada de uma via de administração.
Rapidez não basta sem estrutura
Nenhuma via de administração substitui o que precisa estar ao redor dela. Para que o tratamento seja seguro e eficaz, quatro elementos são indissociáveis:
- Protocolo clínico estruturado e validado.
- Seleção adequada do paciente.
- Ambiente controlado, com monitorização apropriada.
- Equipe preparada e treinada para o manejo do procedimento.
"A decisão francesa não encerra o debate. Mas sinaliza que a psiquiatria intervencionista começa a deixar de ser vista apenas como fronteira de inovação, para ocupar um espaço real de reconhecimento institucional."
Vale acompanhar de perto — e vale, sobretudo, tratar esse avanço com o rigor que ele exige: ciência, protocolo e cuidado, nessa ordem.
Referências: ANSM. Décision du 09/03/2026 établissant un cadre de prescription compassionnelle pour la kétamine injectable dans le traitement des idées suicidaires sévères chez l'adulte; Jollant F, et al. The Lancet. 2026. "Suicidal crisis: first regulatory approval of IV racemic ketamine".