19 de julho de 2026
Dor crônica refratária: quando a analgesia convencional não é suficiente

Quando a dor crônica não responde aos analgésicos convencionais, a pergunta deixa de ser "qual remédio aumentar" e passa a ser "qual mecanismo estamos tratando". Um estudo publicado na Pain Medicine ajuda a responder isso com dados.
Pesquisadores avaliaram 120 pacientes com dor crônica refratária, divididos em três grupos de tratamento intravenoso: lidocaína isolada, cetamina isolada, e a combinação das duas. Os participantes representavam um espectro amplo de condições dolorosas — da dor neuropática à dor oncológica, passando por síndrome dolorosa regional complexa (SDRC), dor fantasma, dor pós-cirúrgica crônica, dor pélvica crônica e dor isquêmica.
O que os resultados mostraram
- Todos os grupos apresentaram redução significativa da dor.
- Parte dos pacientes manteve a melhora por até 3 meses de seguimento.
- A combinação lidocaína + cetamina mostrou maior redução da dor em alguns momentos da avaliação.
- O grupo combinado também apresentou melhor impacto na qualidade de vida aos 3 meses.
Por que combinar essas medicações pode fazer sentido
Na dor crônica, o sistema nervoso frequentemente passa a funcionar como se o "volume da dor" estivesse permanentemente aumentado — um fenômeno chamado sensibilização central. Cetamina e lidocaína atuam sobre isso por caminhos diferentes e complementares.
- Cetamina atua no receptor NMDA, ligado ao glutamato, ajudando a reduzir a hiperexcitabilidade do sistema nervoso central.
- Lidocaína age nos canais de sódio dos nervos periféricos, reduzindo descargas elétricas anormais e modulando a transmissão da dor.
Quando duas substâncias atuam por mecanismos distintos, a combinação pode gerar um efeito maior do que o uso isolado de cada uma — a chamada sinergia farmacológica. Na prática, isso pode significar doses menores, melhor resposta analgésica e menor risco de efeitos adversos.
Esse raciocínio se aproxima também do conceito por trás do BSV — Bloqueio Simpático Venoso, técnica utilizada em alguns quadros dolorosos complexos para modular os componentes autonômico, vascular, inflamatório e neuropático da dor simultaneamente.
"Na dor crônica refratária, o futuro talvez não esteja em uma única medicação, mas em protocolos mais inteligentes, integrados e individualizados."
Tratar dor é recuperar mais do que uma nota na escala
Reduzir um número na escala de dor é apenas parte do objetivo. O que está em jogo, na prática clínica, é a recuperação de função, sono, movimento, autonomia e qualidade de vida.
Dor crônica refratária exige mais do que prescrição. Exige estratégia, fisiopatologia e cuidado integrado.
Se você convive com dor crônica refratária há meses sem resposta clara, uma avaliação dedicada pode mudar o rumo do tratamento.
Referência: Kositanurit K, Chalermkitpanit P, Limtrakool N, Assavanop S. Analgesic efficacy of intravenous lidocaine vs ketamine in refractory chronic pain: a retrospective analytic study with 3-month follow-up. Pain Medicine, 2026.